O execrável Alexandre Padilha, que para nosso azar é ministro da Saúde, avisou que o governo federal não vai tolerar qualquer “incitação ao preconceito e à xenofobia” contra os médicos cubanos que estão no Brasil. Como se questionar um programa em parceria com uma ditadura e financiado pelo nosso dinheiro fosse algo equivalente ao antissemitismo do “companheiro” fascista Ahmadinejad. Além de denunciar a tática malandra do petista, é preciso desmoralizar o embusteiro.
Aqui estão cinco sugestões para que você mostre que é solidário com os cubanos. Ao ponto de ajudá-los a subverter a ditadura quando regressarem à ilha-prisão dos Irmãos Castro. 1-Doe absorventes para as médicas cubanas. Itens de higiene básica são escassos em paraísos comunistas. As mulheres são obrigadas a usar certos subterfúgios. No lugar de absorventes, toalhinhas de pano que nossas bisavós usavam. Médicas cubanas merecem absorventes de verdade, de preferência da marca Sempre Livre.
2-Apresente o RedTube aos doutores. É uma forma silenciosa de plantar as sementes da subversão na terra dos irmãos Castro. Depois que acessarem tal conteúdo, os médicos cubanos se juntarão a Yoani Sanchez exigindo o fim da censura digital!
3-Abra um crediário para o visitante nas Casas Bahia. Ele vai perceber que não precisa se submeter a uma ditadura de partido único, que a essa altura já degenerou numa dinástica comunista, só pra conseguir aquele sofazinho bege.
4-Faça uma excursão com os doutores na rua 25 de Março. Todo besteirol contra o livre mercado cai por terra em 5 minutos de andança pela rua mais capitalista do Brasil.
5-Compre um Mclanche para o seu cubano de estimação. Um hambúrguer gorduroso e uma Coca Cola gelada são capazes de curar qualquer delírio ideológico. Até Che Guevara curtia a água suja do capitalismo. Na volta para Cuba, os médicos já serão agentes implacáveis da contrarrevolução!
Vadias odeiam a Igreja Católica porque odeiam o Ocidente
A típica feminista foucaultiana é tão inteligente quanto um preservativo aroma morango. Sim, eu posso provar.
Na “Marcha das Vadias” brazuca é possível encontrar cartazes
contra o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. Também é possível ler
declarações das autoproclamadas vadias contra o “imperialismo cultural” e o
“fetichismo sexual”.
E claro, abundam xingamentos contra
o Papa Francisco, este terrível inimigo das vaginas ocidentais.
Mas você já ouviu alguma feminista tupiniquim falando sobre
a iraniana Nasrin Afzali? A brava jornalista foi condenada em 2008 a seis meses
de prisão e a dez chibatadas por “perturbar a ordem pública”, durante um
protesto em frente ao tribunal “revolucionário” de Teerã.
Com um nome bem mais complicado, outra jornalista iraniana
permanece desconhecida no Brasil: Noushin Ahmadi Khorasani. A bela e jovem ativista
coordena a campanha “Um Milhão de Assinaturas” que busca a revogação das leis
discriminatórias contra mulheres no Irã. Ela vive sendo presa, censurada,
libertada e presa novamente. É uma rotina e tanto!
Nasrin Afzali foi condenada a chibatadas e a cadeia
Sim, existem muitas mulheres corajosas lutando no quintal
dos Aiatolás. Mas, novamente, você conhecia a história delas? Recentes casos de
prisões de mulheres nos distritos de Teerã foram amplamente noticiados pela
mídia ocidental. Mas no Brasil nada disso foi divulgado.
Não há uma única palavra das ativistas brasileiras sobre a
repressão sofrida pelas mulheres no Irã. Pode ser mero descuido. As feministas
tupiniquins talvez estejam priorizando os interesses associados aos seus
próprios úteros, diariamente ameaçados pelo império e o fetiche.
Noushin: a iraniana que inexiste para as feministas brasileiras
Vadias foucaultianas
Foucaultianas são amebas intelectuais à serviço do relativismo
Ouso afirmar que não é um mero descuido, mas um esquecimento
intencional. As razões são ideológicas. Eu conheci algumas donas de vaginas
libertárias. E o discurso delas era sempre em código binário: o repúdio
sistemático ao Ocidente e a glorificação de tudo que não é ocidental.
Fui anarquista por alguns anos (na época em que não
precisava pagar minhas contas) e ainda cursei sociologia. Foi assim que conheci
o feminismo pós-moderno, um subproduto do multiculturalismo (não devemos julgar
a cultura alheia, por mais terrível que nos pareça).
O multiculturalismo prega que não existem critérios
universais para julgar se algo é verdadeiro ou falso; bom ou ruim. Vegetarianos
ou canibais, cada grupo social deve ser livre para manter internamente, entre
seus membros, o seu próprio código de conduta. E o conjunto de hábitos e
tradições de cada grupo fica assim moralmente imune a críticas e sanções de
outros.
Foucault: libertário no Ocidente; cheerleader de teocracia no Oriente
A modinha relativista é um vírus que se espalhou pela obra
de autores obscuros como Michael Foucault (1925-1984). O francês confessou em
entrevista ao colega americano John Searle que escrevia “bobagens
impenetráveis” para ser levado a sério pela academia francesa. A revelação está
documentada no livro “Quebrando o Espanto”, de Daniel Dennet.
Foucault acusava o Ocidente de manter na sombra um aparato
de vigilância para controlar e punir indivíduos. O pensador “libertário” via
repressão até nas palavras. Ele estava na Tunísia, mas gozou de tesão à
distância quando ocorreu a revolta de 68 em Paris. Foucault via nela uma reação
ao Estado castrador que ele jurava existir em todos os níveis da vida
ocidental.
E assim surgiram as vadias foucaultianas. São as fêmeas
impressionáveis que aprenderam com o criador de bobagens impenetráveis que o
Ocidente na verdade é uma grande prisão, e que se procurarmos bem vamos nos
deparar com o Estado repressor até debaixo da cama. Há muitas delas nas
ciências sociais, em constante estado de masturbação intelectual.
As vadias foucaultianas odeiam a Igreja Católica porque
sabem que sem ela não existiria civilização ocidental. É este o grande inimigo
das vaginas libertárias: o Ocidente. A histeria delas produz não apenas
autodepreciação, mas a glorificação do “outro”, seja ele quem for. Não é
difícil encontrar vadias foucaultianas elogiando alguma
teocracia...antiocidental.
Sartre e Foucault no comitê de apoio a Revolução Iraniana
Até mesmo Simone de Beauvoir (1908-1986) integrou o comitê
de suporte ao Aiatolá Khomeini (1900-1989), o xiita que mergulhou o Irã na teocracia
que até hoje mantém um quadro de repressão e extermínio de mulheres,
homossexuais e outras minorias.
A feminista fez críticas tardias ao regime e se retratou
antes de morrer. Foucault também foi um embaixador não remunerado da odiosa
teocracia. A diferença é que Foucault escolheu o silêncio mesmo diante das notícias
de que homossexuais como ele eram perseguidos e mortos pelo seu amado Aiatolá –
o libertário francês chegou a visitar o xiita iraniano nos anos 70.
Os equívocos do francês estão registrados detalhadamente em “Foucault
e a Revolução Iraniana” (Editora É), de autoria da feminista iraniana Janet
Afary e do sociólogo americano Kevin Anderson.
Os autores investigam as razões
pelas quais um pensador supostamente libertário virou apoiador entusiasta de um
regime que se revelou um pesadelo para minorias.
Livro documenta apoio de Foucault ao Aiatolá
Não há mistério. Foucault foi coerente com sua
esquizofrenia: ele rejeitava a existência da verdade, e a legitimidade de
critérios universais para se chegar ao bom e ao justo. Por isso não hesitou em combater
o demônio em sua casa e transar com ele na casa do vizinho.
Na cama com o inimigo
Se toda verdade é relativa, como contestar preconceitos e injustiças?
As vadias foucaultianas não estão em posição diferente: permanecem
de quatro diante do Diabo. O substrato do seu discurso continua sendo o
relativismo.
Se “toda verdade é relativa”, sinto informar, é impossível
contestar qualquer injustiça social. O que é injusto para o vegetariano, é
perfeitamente aceitável para o canibal. Idem para a feminista e o machista.
Em seu clássico “Imposturas Intelectuais” (Editora Record)
os cientistas Alan Sokal e Jean Bricmont (ambos de esquerda) desenharam para os
relativistas entenderem:
Se todos os discursos
são meras “histórias” ou “narrativas”, e nenhuma é mais objetiva ou verdadeira
que a outra, deve-se então admitir que os piores preconceitos racistas ou
sexistas e que as mais reacionárias teorias sócio-econômicas são igualmente
válidos [...] Fica claro que o relativismo é uma base extremamente frágil sobre
a qual fundar a crítica à ordem social.
Imposturas Intelectuais: "a merda atinge o ventilador"
Por isso os meus olhos sangram quando leio artigos de
feministas foucaultianas* reabilitando o velho besteirol relativista para
criticar o Ocidente malvado. Não tenho dúvidas de que uma feminista que leva
Foucault a sério é tão inteligente quanto um preservativo aroma morango.
Como podem contestar as injustiças que alegam existir contra
elas se tudo é uma questão de ponto de vista? Se um ocidental não pode usar
critérios universais e racionais para criticar a teocracia iraniana, tampouco
as feministas podem fazê-lo em relação ao Ocidente. As vadias foucaultianas são
incapazes de sustentar intelectualmente qualquer crítica a qualquer coisa.
Sociedade patriarcal emancipou
as vadias
Aliás, eu as desafio a subscrever a crítica implacável da
feminista dissidente Camille Paglia. Ela é uma senhora corajosa que, contra
moda relativista, parte de critérios universais de verdade e justiça para
avaliar a situação das mulheres e minorias em todo mundo:
Se as armas nucleares
fabricados no Irã acabarem nas mãos dos jihadistas e finalmente forem implantados
com sucesso em nossas capitais, o Ocidente vai olhar como se tivesse cometido suicídio
e merecesse cair.
Camille Paglia lembra que as vadias foram emancipadas pela sociedade patriarcal
Em “Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertiti a Emily
Dickinson” (sem tradução), Paglia contesta a outra face da histeria foucaultiana:
o ódio ao Ocidente. A crítica feminista padrão é parecida com o desdém da dona
de casa que vive comparando o marido ao vizinho:
Um dos reflexos
irritantes do feminismo é o seu desdém diante da "sociedade
patriarcal", para qual nada de bom nunca é atribuído. Mas é a sociedade
patriarcal que me libertou como mulher. É o capitalismo que tem me dado o tempo
livre para sentar-me nesta mesa e escrever este livro. Vamos parar de ser
mesquinhas sobre os homens e livremente reconhecer os tesouros que sua obsessão
derramou em nossa cultura.
Quando vejo as vadias deste quarteirão ocidental do mundo
escarnecendo livremente dos símbolos religiosos da “opressora” Igreja Católica
e criticando abertamente os nossos governos “fascistas”, lembro-me de Nasrin
Afzali e Noushin Ahmadi Khorasani. Você nunca mais lerá estes nomes.
PS.: Sou solidário às feministas que pretendem imprimir um
novo “sentido valorativo” ao termo “vadia”, por isso utilizei o mesmo alegremente
em todo o texto como sinal de apoio.
O jovem libertário e seu certificado de militante antiestatista
O jornalista William Buckley (1925-2008) – a mente arquidistinta que
concebeu a melhor publicação conservadora da América, a National Review – é
celebrado como um notável anticomunista, mas ele afirmava que sua maior missão na
Terra era a de “tentar proteger a Direita dos malucos”. Se fosse vivo hoje, o
combativo conservador teria muito trabalho.
Brotam das terras férteis da demência ideológica hordas
de ativistas mirins que se colocam à Direita no espectro político, mas que são
guiados pelo mesmo catálogo de crenças ingênuas dos utopistas mais fervorosos –
e por isso divergem deles apenas por oferecer dogmas outros.
Sim, eles têm uma religião para vender. E uma santa para
servir de inspiração. A santinha dos escoteiros libertários não acreditava em
Deus, mas depositava toda fé que tinha no homem – falo da espécie – em sua
jornada gloriosa rumo à satisfação de suas próprias vontades (sic).
Monista, otimista e iluminista: uma marxista para a Direita
A filósofa e romancista russa Ayn Rand (1905-1982) seria
um perfeita marxista se não tivesse sofrido na pele os horrores da União
Soviética. O materialismo randiano é uma fórmula muito próxima ao materialismo
dialético de Karl Marx (1818- 1883). Diferente, claro, mas vizinho.
O materialismo randiano sustenta que há um jeito certode se viver, informado pela Razão e observado diretamente na
Natureza, que é fundamentado numa moralidade egoísta que identifica o indivíduo
como única realidade social e centro de todo dilema moral.
Ayn Rand vende uma fórmula ideológica cujos ingredientes
são conhecidos dos marxistas: o monismo (uma grande verdade da qual descendem
todas as outras), a fé na Razão (por meio dela resolvemos até os nossos dilemas
morais) e o otimismo antropológico (o homem é detentor das virtudes e sabedoria
necessárias para moldar seu destino como bem quiser).
Temos acima listados todos os ingredientes das utopias selvagens
que devastaram o mundo em séculos passados. É claro que aquele jovem coberto de
espinhas, que se autoproclama guardião da liberdade, não enxerga perigos aqui.
O jovenzinho sectário reduziu toda a complexidade da realidade social aos
dogmas da sua santinha. Isso nem é novidade.
Monismo: lar do objetivista
e do marxista
O homem autossuficiente: a utopia de libertários e marxistas
Eu duvido que os escoteiros
libertários tenham perdido mais de 10 minutos de suas vidas deploráveis com a
leitura de qualquer obra digna de reflexão. Ou eles dominam as noções clássicas
que norteiam o debate político moderno como, por exemplo, o conceito de “liberdade
dos antigos e liberdade dos modernos” de Benjamin Constant (1767-1830)?
Para dar uma surra na
criançada, nada melhor que as palmadas de um sábio cético. Sir Isaiah Berlin
(1909-1997) também viu de perto o horror soviético. Mas o filósofo entendeu
desde cedo que ideologia não se combate com ideologia. “Eu não creio que a
resposta ao comunismo seja uma contrafé, com igual ardor e militância”, dizia o
inglês que veio da Letônia.
Isaiah Berlin: um sábio cético contra os delírios monistas
A obra de Berlin é uma vacina atemporal aos delírios
monistas. Lembrem-se: o monismo é a crença ingênua de que um único princípio geral
é capaz de explicar a totalidade da realidade. Quando transferido para a
política, é uma tentativa de reduzir o mundo a uma ideologia.
A filosofia randiana – tal como seu vizinho ideológico, o
marxismo – é exemplo perfeito de monismo. Ayn Rand entendia que todo ser humano
que não coloca a sua versão infantil de liberdade no topo da hierarquia de
valores é um alienado e precisa ser convencido ou combatido. A velha mentalidade esquerdista em ação.
Para a filósofa russa, assim como para todo monista, há
somente uma verdade máxima que deve conciliar todos os valores sob sua égide. Se
a realidade é regida por um princípio único, os que não vivem de acordo com tal
princípio são imbecis ou monstros imorais. Objetivismo e o marxismo, cada qual
com sua receita de bolo de mundo perfeito, dizem exatamente isso.
Um libertário típico alertando os alienados sobre o estatismo
Para o objetivista, a Razão informa ao homem que a liberdade
(ou melhor, a versão randiana de liberdade) é o valor máximo sob o qual ele
deve construir sua vida. O marxista diz o mesmo, mas se referindo ao
igualitarismo. Ambos prometem um estado utópico de felicidade.
É claro que a defesa do princípio máximo que rege a vida – o
único pelo qual vale a pena viver – justifica qualquer sacrifício. Não é por
acaso que marxista e objetivista têm demandas radicais: de um lado o fim da
propriedade privada; do outro a submissão total à propriedade.
Por isso temos escoteiros libertários clamando por governo
altamente limitado (não importa se o fim do complexo militar estatal compromete
a defesa da nação) e dinossauros marxistas clamando pelo Estado total (não
importa se o indivíduo é esmagado pelo seu salvador).
O que o move o libertário e o marxista em seus surtos de
radicalismo é a pureza ideológica. A premissa deve ser seguida até as últimas consequências.
O dogma é o guia inquestionável.
Pluralismo
Ayn Rand voltou dos mortos com seu marxismo de Direita
Contra esse radicalismo utópico, Isaiah Berlin apresentou uma
apologia do pluralismo: o reconhecimento de que os homens perseguem diferentes
valores, que são inconciliáveis em sua máxima expressão. A total harmonia entre
eles é impossível. Só o que podemos fazer é administrar pacificamente o
conflito de valores no fórum que é a democracia liberal.
Ao se deparar com os abusos da URSS, a santinha dos
libertários concluiu que o erro dos soviéticos era que eles veneravam a
ideologia errada. Ela não identificou que a raiz do problema era a própria
mentalidade monista. O conteúdo e a forma
eram equivocados.
Isaiah Berlin entendeu que não se trata apenas de defender o
dogma ideológico correto. A defesa da liberdade implica em reconhecer e aceitar
o pluralismo de valores. Ayn Rand reduziu a complexidade da realidade à sua filosofia. Berlin nos
legou o antídoto contra tais delírios monistas.
O espírito do fascismo só incorpora na multidão; indivíduos têm fortes anticorpos
Em certa manhã o Brasil acordou metamorfoseado em uma gigantesca
multidão. Com suas milhares de bocas cantando e gritando, a multidão ruidosa lá
fora promete nos salvar de nós mesmos. Mas identifico nela o protagonista de
muitos pesadelos intranquilos: um monstro coletivo que dança pelas ruas durante
o dia e, à meia-noite, emudece e veste uma farda.
O clima de ufanismo que tomou o País vem de uma
constatação que virou slogan: “O povo está na rua!”. É comovente.
Porém, a história mostra que momentos de revolta popular não precedem,
necessariamente, fases de ampliação de direitos e
liberdades – em muitos casos ocorreu justamente o contrário.
Os especialistas convidados das emissoras de TV não hesitam
em comparar a revolta brasileira à Primavera Árabe. É uma comparação reveladora.
A insurreição popular nos países árabes buscava a ampliação de liberdades
individuais e para tal derrubou vários governos autoritários. A queda dos despóticos,
contudo, não se configurou em um ganho de liberdades e direitos. Egito e Tunísia caíram nas mãos de partidos islâmicos
radicais. A Líbia enfrenta um conflito civil.
A Primavera Árabe,
nesses países, degenerou-se em um Inverno do Terror. Os especialistas da TV parecem
espertos, mas têm memória curta ou são otimistas demais.Aliás, a história do século XX é um longo desfile de
revoluções e mobilizações populares que terminaram em despotismos e
carnificinas.
O Brasil já esteve na passarela. É preciso lembrar que a
sociedade civil chancelou o golpe militar de 1964 com gigantescas marchas pela
família e a liberdade. As massas revoltosas lá fora têm memória curta. Ou são
otimistas demais.
O povo está nas ruas
A geração contra a ditadura; a geração "contra tudo que está aí"
Sim, eu sei que as ruas estão tomadas por pessoas legais que
estão lutando “contra tudo o que está aí”. É gente comum que, sem pretensão de
obter vantagens, marcha contra a corrupção, pela saúde,
educação, etc. Isso é maravilhoso, não é mesmo?
O problema é que surgiram traços de fascismo aqui e acolá. Antes
de ser uma ideologia, o fascismo é um sentimento forjado nas massas. Aliás, o
termo deriva da palavra italiana fascio, que significa “feixe” e aponta para
ideia de união e poder. O espírito do fascismo só ganha corpo na multidão, pois
ela é a anulação do pluralismo de valores e objetivos dos indivíduos.
Mas, antes, o que são as massas? O filósofo espanhol José
Ortega Y Gasset (1883-1955) é o especialista. Segundo o autor de “A Rebelião das Massas”
(1930), elas são formadas pelas sobras de indivíduos antes autônomos e
diferenciáveis que, uma vez desintegrados em uma multidão orgânica, se reduzem
ao papel de receptáculos de vontades mascaradas.
Não por acaso, centenas de manifestantes que ocupam as ruas usam a mesma máscara, que os torna indiferenciáveis. Ortega Y Gasset
alertou que o maior perigo consiste em outorgar a este monstro o mandato da
sabedoria política apenas porque ele é coletivo.
Há perigos reais e imediatos. Por aqui a onda de protestos tinha
caráter apartidário. Mas a coisa evoluiu para manifestações contra os partidos
– o que é muito diferente de apartidário. Se nos seus primórdios era simplesmente
independente de políticos, o movimento se tornou o receptáculo de um sentimento
antiparlamentar – o que equivale a ser antidemocrático.
Nós podemos renovar o Congresso Nacional por meio de voto. O
problema é que as multidões lá foram parecem expressar uma vontade mascarada de
lutar “contra tudo”, o que resultaria no fim do Parlamento e demais
instituições. O sentimento “contra tudo o que está ai” pode evoluir para o
sentimento enganoso e perigoso que diz: “qualquer outra coisa serve”.
A França de 1789 é resultado dessa evolução de sentimentos
vulgares do populacho. Os revolucionários franceses prometeram ao povo que
começariam uma fase de emancipação política e social. Eles ganharam adesão da
burguesia e do proletariado.
Graças às massas revoltosas nas ruas de Paris, o movimento
revolucionário destronou o rei em nome da liberdade. Porém, logo após entregar
o poder aos reicidas (que eram seus supostos libertadores), os franceses
conheceram um reinado terror que ceifou milhares de vidas.
Robespierre perdeu a cabeça para a própria ideia
Foi Maximilien Robespierre (1758-1794), aclamado como “O
Incorruptível”, quem inaugurou a fase de terror que não poupou nem a ele mesmo.
Robespierre inventou o termo “inimigo do povo” e concebeu uma pena brutal
contra os que tinham o azar de entrar na categoria: morte na guilhotina. Na
lista da morte, “O Incorruptível” colocou muitos dos seus desafetos.
A revolta popular precedeu um período de irracionalidade e
medo que só terminou com a execução do executor-chefe: Robespierre foi
guilhotinado em 1794. O povo não teve tempo de comemorar: logo depois Napoleão
Bonaparte (1769-1821) assumiu o posto, iniciando um novo período de terror,
carnificina e despotismo. Em nome dos interesses do povo, é claro.
Robespierre está na
esquina
No plenário do Senado Federal, o senador Cristovam Buarque
sugeriu a abolição de todos os partidos políticos brasileiros. A proposta
antidemocrática foi recebida com entusiasmo por muita gente que está nas ruas lutando,
entre outras coisas, por mais democracia.
“Talvez eu radicalize aqui, mas acho que para atender o que o
povo quer, nós precisaríamos de uma lei: estão abolidos todos os partidos”, afirmou
o senador. Sintomaticamente, ele sugere que se novos partidos não servirem de
solução teremos de inventar “qualquer outra coisa”.
Não acredito que o senador seja mal intencionado. Porém, o
histórico dos revolucionários franceses mostra que boas intenções não garantem boas
mudanças. A insatisfação “contra tudo o que está ai” é um convite à ideia de
que podemos recomeçar a sociedade do zero.
Não podemos confiar em caras legais e bem intencionados
Os algozes da liberdade geralmente são os sujeitos bem
intencionados que aparecem diante do povo, nos momentos de crise, convictos de
que podem corrigir facilmente a realidade social, aplicando nela as belas
abstrações e os nobres sentimentos que carregam consigo.
“Na medida em que liberdades e restrições variam com o tempo
e as circunstâncias, e admitem infinitas modificações, não podem ser
estabelecidas sob qualquer regra abstrata, e nada é tolo quanto discuti-las
sobre esse princípio”, escreveu o parlamentar britânico Edmund Burke
(1729-1797) em seu clássico “Reflexões sobre a Revolução na França” (1790).
Fé na criança mandona
Burke previu que o regime inaugurado pelos revolucionários
franceses terminaria em despotismo e terror. Ele percebeu que insurreições
populares não são garantia de liberdade futura, pois têm o potencial de abrir
caminho para que revolucionários destruam as tradições e instituições nacionais
do presente a fim de tentar recomeçar a sociedade do zero.
Apertar o botão “reset” nunca é uma possibilidade quando se
trata de sociedades humanas, pois elas não são tabulas rasas prontas para
receber passivamente novas instruções. A crença de que podemos reprogramar a sociedade,
com a certeza de que a realidade social vá atender docilmente aos nossos
desejos, é uma bobagem digna de uma criança mandona.
Quando a realidade social não obedece aos seus desejos, a criança mandona faz birra!
Os destruidores das tradições e das instituições nacionais
não surgem por acaso. Eles são a vanguarda das massas revoltosas que, ocupadas
em marchar, não dispõem de tempo para refletir sobre seus próprios anseios. As
massas revoltosas é que autorizam as crianças mandonas a desfazer as frágeis
costuras institucionais que nos mantêm a salvo do despotismo.
Não devemos confiar em sujeitos bem intencionados, tampouco
podemos nos dar ao luxo de depositar fé na inteligência das massas. Nos
próximos dias aparecerão muitos “mocinhos” oferecendo soluções radicais para saciar
os anseios da “multidão do bem” lá fora.
O que dizer dos caras legais que lutam contra “tudo que está
aí”? Como bem notou Edmund Burke, “destroem mais do que são capazes de
reconstruir”. Quando o conservador inglês chegou a essa conclusão, Robespierre ainda
não havia perdido a cabeça na própria guilhotina.